segunda-feira, 18 de junho de 2012

Excelente Artigo:Vale a pena ler.


Cassio Leite Vieira é jornalista do Instituto Ciência Hoje e coautor de "A Revolução dos Q-Bits" (Zahar). Artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 5 de junho.
Às vésperas da Rio+20, talvez a história da ciência e a filosofia possam ensinar algo sobre o planeta e os humanos.
Se uma pesquisa tivesse sido feita no final do século 19 entre os grandes nomes da física, é bem provável que aqueles luminares aceitassem, como realidade incontroversa, a existência do éter (meio com propriedades tanto esquisitas quanto paradoxais que serviria de suporte para a propagação da luz). Em 1905, Albert Einstein (1879-1955), com sua teoria da relatividade, descartaria essa "propriedade" do espaço. Cerca de 20 anos depois, porém, ainda havia cientista que acreditasse em tal suporte.
Conceitos científicos arraigados são difíceis de matar. O físico alemão Max Planck (1859-1947) dizia que uma verdade científica não triunfa pelo convencimento de seus oponentes, mas, sim, porque estes últimos acabam morrendo, e ela se torna familiar a uma nova geração. O historiador marxista britânico Eric Hobsbawm põe a ciência como a forma de cultura mais influente do século 20. Para o bem e para o mal.
Ao longo da história, cientistas obtiveram resultados grandiosos - um deles é, sem dúvida, a teoria da relatividade, que permitiu o primeiro modelo cosmológico de base científica. Mas produziram fraudes e pseudociência - esta última quando o cientista crê que aquilo que obteve é verdadeiro.
Ciência está longe de ser pura, imaculada, como às vezes é vendida. Ciência tem muito de marketing. Quando um novo campo científico nasce (por exemplo, engenharia genética e nanotecnologia), ele traz sua carga de promessas. Nessas horas, cientistas, incensados pela mídia, desfilam futurologias (do bem, obviamente), pois sabem que isso traz visibilidade (e financiamento) para os seus laboratórios ou os seus projetos.
A história da ciência, no entanto, ensina: o cemitério das promessas científicas está cheio de covas profundas e esquecidas - grande parte delas preenchidas com medicamentos e vacinas contra males ainda incuráveis.
Rio+20 - Fraudes, pseudociência, aceitação forçada de paradigmas, medo da discordância e do debate franco... todas mazelas criadas em nome do prestígio, da vaidade, de egos exacerbados, da competição, do medo de macular a carreira, da pressa em publicar etc.
Mas o que tudo isso tem a ver com a Rio+20? Vejamos.
O filósofo alemão Jürgen Habermas diz que um dos traços das democracias modernas é que o público tem que lidar com políticas como "pacotes fechados", dizendo apenas se é a favor ou contra eles, sem discussões mais aprofundadas.
Se pudermos estender essa característica política às tendências ambientalistas, então o caso emblemático de "pacote fechado" talvez seja a questão do aquecimento global ou das mudanças climáticas - a escolha vai depender dos interesses políticos e econômicos do sujeito, como já revelaram pesquisas.
O leitor acredita em qual pacote? Crê no aquecimento global ou é cético?
A impenetrabilidade de Habermas aponta um caminho perigoso: grandes teorias científicas, por sua complexidade, acabam sendo aceitas como dogma. Ou rejeitadas como um. Na questão climática, o "sim" (aceitação) preponderou até agora - afinal, é difícil, mesmo para um cientista, levantar a voz contra um documento, o relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que traz a assinatura de mais ou menos 2.500 especialistas com doutorado.
Ceticismo - Mas, agora, parece brotar certo desconforto entre os próprios cientistas. Caso emblemático: 16 deles, todos renomados, publicaram manifesto nas páginas do "The Wall Street Journal" (26.jan.12) com o sugestivo título "Não é preciso se apavorar com o aquecimento global". Basicamente, dizem que não é necessário tomar medidas drásticas, no curto prazo, contra o aquecimento global, que o gás carbônico não é poluente e que as evidências do fenômeno não podem ser consideradas incontroversas (essas últimas são palavras de um Nobel de Física).
Respostas a esses céticos já são encontradas a granel na internet. Uma delas é a de William D. Nordhaus, professor de economia na Universidade Yale (EUA), "Por que os céticos do clima estão errados" ("New York Review of Books", 22.fev.12).
A mídia tem culpa na solidificação de paradigmas na ciência. Costuma -pela própria essência do jornalismo sobre ciência- privilegiar resultados e profecias em detrimento de dúvidas e reveses. Ciência, por sinal, nas palavras do filósofo britânico John Gray, é, hoje, o terreno das certezas; as dúvidas, diz ele, ficaram para a religião.
Nos jornais, há crítica de teatro, literatura, cinema, artes, música, gastronomia... E de ciência? Afinal, ela não é uma forma de cultura, a mais influente do século passado, segundo Hobsbawm?
Parte do esclarecimento (certezas e, principalmente, dúvidas) deveria vir dos próprios cientistas. Mas a verdade é que eles são resistentes em falar com um público que mal entende um fenômeno básico do cotidiano e titubeia perante matemática simples. O debate darwinismo versus criacionismo (e também ciência versus esoterismo) corrobora o dito acima.
À beira da Rio+20, o "Manifesto dos 16" foi pancada forte. Mas o que fraquejou pernas e esvaziou pulmões científicos foi a revelação, há poucos anos, de mensagens de um especialista da área em que estava confessa a manipulação de dados pró-aquecimento -é o lado humano (sem aspas) dessa atividade. O vazamento abalou profundamente a crença pública - e a de cientistas- em um conhecimento reunido arduamente nas últimas décadas.
É improvável que 2.500 especialistas estejam errados. Mas vale ter em mente o caso do éter, que abre este texto.
Para finalizar, retome-se Gray, com seu magistral e impressionante "Cachorros de Palha" (Record, 2005). O filósofo defende que o movimento verde sofre, nas origens, do mesmo mal do cristianismo e da própria ciência, a saber: o humanismo, este no sentido de que o homem é superior a outras espécies animais, é senhor de seu destino, pode controlar a tecnologia que cria e acredita na ilusão de progresso - algo que o britânico diz fazer sentido só no âmbito da ciência e não na ética, na política, nas artes, na literatura...
Natureza humana - Gray defende que a espécie humana é dominadora e destrutiva. E não adianta tergiversar, diz ele: somos assim, é a nossa natureza humana, algo negado, na política, ao longo da história, pela direita e pela esquerda e que está, para ficar num só exemplo, na raiz de genocídios.
O alento em todo o pessimismo de Gray é que a Terra, como sistema robusto que é, resistirá à infecção por humanos. Mas a um preço: destruição da fauna e da flora. Seguindo o pessimismo de Gray, é possível que tudo o que foi dito até aqui seja algo de menor importância. "A destruição do mundo natural não é o resultado do capitalismo global, da industrialização, da 'civilização ocidental' ou de qualquer falha nas instituições humanas. É consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapinador. Ao longo de toda a história e pré-história, o avanço humano tem coincidido com devastação ecológica", escreve ele.
Neste momento de Rio+20, a reflexão mais profunda, talvez, não deva ser sobre essa ou aquela política, esse ou aquele dado científico, isso ou aquilo da economia. Mas, sim, sobre quem (realmente) somos, se valemos a pena.
E uma das análises mais profundas sobre essa questão está em "Cachorros de Palha". Vale ler, mesmo que seja para discordar.
* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.




domingo, 17 de junho de 2012

Reflexão



Segundo a mitologia Maia Huracám (um dos deuses do panteão Maia) fez várias tentativas de criar a humanidade, em uma delas( já quase desistindo) ele amassou milho branco e amarelo até formar uma pasta.
 Com ela, criou os primeiros quatro homens, contudo ele percebeu que os homens eram inteligentes demais. Então ele soprou uma neblina em seus olhos para que só enxergassem perto e nunca quissesem virar deuses...
Moral da história:
Muitos hoje ainda tem essa neblina em excesso na vista...outros já a retiraram e se acham tão poderosos quantos os deuses...Não sei bem...Mais acho que o meio termo é sempre a melhor opção.
O deus Huracán da civilização Maia, ele teria sido responsável por criar os primeiros homens, no entanto deu uma  "VISÃO" reduzida (jogou a neblina) para que suas criaturas não quisessem serem iguais ao seu criador...

Eriberto Esdras de Oliveira

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um enigma: QUEM SÃO OS SONACIREMA?

Lembrei-me que já faz algum tempo que não posto nada, procurando o que  eu poderia postar lembrei das aulas de Antropologia e de um texto muito interessante ( foi o texto do primeiro ou segundo dia de aula daquela disciplina ) sobre O RITUAL DO CORPO ENTRE OS SONACIREMA, o legal do texto é procurarmos saber quem é esse povo?Por que esses rituais tão estranhos?Aliás, são rituais estranhos?

A professora nos jogou o questionamento de “Quem são Os Sonacirema”?Muitos colegas recorreram ao novo pai dos burros (refiro-me ao Google, nada contra também faço isso as vezes), mais como se tratava de enigma a lá enigma da Esfinge(decifra-me ou te devoro!) procurei ler e colocar os meus botões para funcionar, dei minha resposta sobre o meu parecer de quem era esse povo, não dei a resposta certa ao pé da letra, todavia acho que acertei, não disse o jogo de letras( ops, estou falando demais já) mas disse que essa sociedade era muito parecida com...com...

Bom deixe para lá, cada um pode dizer o que acha, está aqui o texto:


O RITUAL DO CORPO ENTRE OS SONACIREMA
Horace Minner[1]

         A maioria das culturas possui uma configuração particular, ou estilo. Frequentemente, um determinado valor central ou uma forma de perceber o mundo deixa sua marca em várias instituições da sociedade.

     O antropólogo tornou-se tão familiarizado com a diversidade de modos pelos quais diferentes povos reagem diante de situações similares, que não consegue se surpreender mesmo com os costumes mais exóticos. Com efeito, se todas as combinações logicamente possíveis de comportamento não tiverem sido encontradas em alguma parte do mundo, ele tem o direito de suspeitar que elas devem estar presente em alguma tribo ainda não estudada. Essa observação já foi, de fato, feita com respeito à organização clânica por Murdock (1949:71). Nesse sentido, as crenças e práticas mágicas dos Sonacirema apresentam aspectos tão pouco usuais, que nos parece desejável descrevê-las como exemplo dos extremos a que o comportamento humano pode chegar.
           O Prof. Linton foi o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o complexo ritual dos Sonacirema, há vinte anos (1936:326), mas a cultura desse povo é ainda muito pouco compreendida.
Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Sonacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Sonacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.
      A cultura Sonacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de preocupação não seja incomum, seus aspectos cerimoniais e a filosofia associada são únicos.
          A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio, e sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é se prevenir dessas características, através do uso de poderosas influências rituais e cerimoniais. Todo grupo doméstico possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. Os indivíduos mais poderosos dessa sociedade têm vários santuários em suas casas e, de fato, a opulência de uma casa é freqüentemente aferida em termos da quantidade que possui desses centros rituais. A maioria das casas é de taipa, mas os santuários dos mais ricos têm as paredes cobertas de pedra. As famílias mais pobres imitam os ricos, aplicando placas de cerâmica nas paredes dos seus santuários.
           Embora cada família possua ao menos um desses santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim privadas e secretas. Os ritos, normalmente, só são discutidos com as crianças, e isso apenas durante a fase em que elas estão sendo iniciadas nesses mistérios. Eu pude, entretanto, estabelecer com os nativos uma relação que me permitiu examinar esses santuários e ouvir descrições desses rituais.
         O ponto focal do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede. Nessa arca são guardados os muitos feitiços e poções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são obtidos de vários profissionais especializados. Entre estes, os mais poderosos são os curandeiros, cujos serviços precisam ser recompensados por meio de presentes substanciais. No entanto, o curandeiro não fornece as poções curativas para os seus clientes, decidindo apenas quais devem ser seus ingredientes e escrevendo-os em seguida em uma linguagem antiga e secreta. Tal escrita só pode ser compreendida pelo curandeiro e pelos herbanários, os quais, mediante outros presentes, fornecem o feitiço solicitado.
          O feitiço não é descartado depois de ter servido a seu propósito, e sim colocado na caixa de mágicas do santuário doméstico. Como esses materiais mágicos são específicos para certas doenças, e as doenças reais ou imaginárias desse povo são muitas, a caixa de mágica costuma estar sempre transbordando. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem sua serventia original, e temem usá-los de novo. Embora os nativos tenham se mostrado muito vagos a esse respeito, podemos apenas concluir que a idéia subjacente ao costume de se guardar todos esses velhos materiais mágicos é a de que sua presença na caixa de mágicas, diante da qual os ritos do corpo são encenados, protegerá de alguma forma o fiel.
           Embaixo da caixa de mágicas existe uma pequena fonte. Todo dia, cada membro da família, em sucessão, entra no quarto do santuário, curva a cabeça diante da caixa d'água, mistura diferentes tipos de água sagrada na fonte, e realiza um breve rito de ablução. As águas sagradas são obtidas do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes conduzem elaboradas cerimônias para manter o líquido ritualmente puro.
        Na hierarquia dos profissionais da magia, e abaixo do curandeiros em termos de prestígio, estão especialistas cuja designação é melhor traduzida por "homens-da-boca-sagrada". Os Sonacirema têm um horror e uma fascinação pela boca que chega às raias da patologia. Acredita-se que a condição da boca possua uma influência sobrenatural em todas as relações sociais. Não fosse pelos rituais da boca, os Sonacirema acreditam que seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas encolheriam, seus amigos os abandonariam, e seus amantes os rejeitariam. Eles também acreditam na existência de uma forte relação entre características orais e morais. Assim, por exemplo, existe uma ablução ritual da boca das crianças que se supõe desenvolver sua fibra moral.
        O ritual do corpo cotidianamente realizado por todos inclui um rito bucal. Apesar do fato de essas pessoas serem tão meticulosas no que diz respeito ao cuidado da boca, esse rito envolve uma prática que o estrangeiro não-iniciado não consegue deixar de achar repugnante. Conforme foi-me descrito, o rito consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos, seguida da movimentação desse feixes segundo uma série de gestos altamente formalizados.
        Além desse rito bucal privado, as pessoas procuram um "homem-da-boca-sagrada" uma ou duas vezes por ano. Esses profissionais possuem uma impressionante parafernália, que consiste em uma variedade de perfuratrizes, furadores, sondas e agulhas. O uso desses objetos no exorcismo dos perigos da boca envolve uma tortura ritual do cliente quase inacreditável. O "homem-da-boca-sagrada" abre a boca do cliente e, usando as ferramentas citadas, alarga qualquer buraco que o uso tenha feito nos dentes. Materiais mágicos são então depositados nesses buracos. Se não se encontram buracos naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são cerradas, para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Na visão do cliente, o objetivo dessas aplicações é deter o apodrecimento dos dentes e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito fica evidente no fato de que os nativos retomam todo ano ao "homem-da-boca-sagrada", apesar do fato de que seus dentes continuam a se deteriorar.
        Deve-se esperar que, quando um estudo abrangente dos Sonacirema for feito, seja realizada uma pesquisa cuidadosa sobre a estrutura da personalidade desses nativos. Basta observar o brilho nos olhos de um "homem-da-boca-sagrada", quando ele enfia uma agulha em um nervo exposto, para que se suspeite de que uma certa dose de sadismo está presente. Se isso puder ser verificado, um padrão muito interessante emergirá, posto que a maioria da população mostra tendências masoquistas bem definidas. Era a tais tendências que o Prof. Linton se referia, ao discutir uma parte especial do ritual cotidiano do corpo que é realizada apenas pelos homens. Essa parte do rito envolve uma lanhadura e laceração da superfície do rosto por meio de instrumento cortante. Ritos femininos especiais ocorrem somente quatro vezes por mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência sobra em barbárie. Como parte dessa cerimônia, as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos durante mais ou menos uma hora. O ponto teoricamente interessante é que um povo que parece ser predominantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.
           Os curandeiros possuem um templo imponente, ou latpso, em cada comunidade de algum tamanho. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para o tratamento de pacientes muito doentes, só podem ser realizadas nesse templo. Tais cerimônias envolvem não só o taumaturgo, mas também um grupo permanente de vestais, que se movimentam calmamente pelas câmaras do templo com uma indumentária e um penteado distintivos.
      As cerimônias latpso são tão rudes que é impressionante o fato de que uma razoável proporção dos nativos realmente doentes que entram no templo consiga curar-se. Crianças pequenas, cuja doutrinação é ainda incompleta, costumam resistir às tentativas de levá-las ao templo, alegando que "é aonde você vai para morrer". Apesar disso, os doentes adultos não apenas desejam, como ficam ansiosos para submeter-se à prolongada purificação ritual, se eles possuem meios para tanto. Os guardiões dos muitos templos, não importa quão doente o suplicante ou quão grave a emergência, não admitem o cliente se ele não puder dar um rico presente ao zelador. Mesmo depois que conseguiu a admissão e sobreviveu às cerimônias, os guardiões não permitem a saída do neófito até que este dê ainda outro presente.
       O(a) suplicante, ao entrar no templo, é primeiramente despido(a) de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, os Sonacirema evitam a exposição de seus corpos e de suas funções naturais. O banho e a excreção são realizados somente na intimidade do santuário doméstico, onde são ritualizados, fazendo parte dos ritos corporais. Choques psicológicos resultam da súbita perda da privacidade corporal, ao se entrar no latpso. Um homem, cuja própria mulher jamais o viu enquanto realizava um ato excretório, subitamente encontra-se nu, assistido por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais dentro de um vaso sagrado. Esse tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excrementos são usados por um adivinho para diagnosticar o curso e a natureza da doença do paciente. Os clientes femininos, por seu lado, vêem seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e cutucadas dos curandeiros.
       Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bem para fazer qualquer coisa que não seja ficarem deitados em suas camas duras. As cerimônias diárias, como os ritos do "homem-da-boca-sagrada", envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais acordam a cada madrugada seus miseráveis pacientes, rolam-nos em seus leitos de dor, enquanto realizam abluções, cujos movimentos formalizados são objeto de treinamento intensivo das vestais. Em outros momentos, elas inserem varas mágicas na boca do paciente, ou obrigam-no a comer substâncias que são consideradas curativas. De tempos em tempos, os curandeiros vêm a seus pacientes e introduzem agulhas magicamente tratadas em sua carne.  O fato de que essas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé do povo nos curandeiros.
       Ainda resta um outro tipo de especialista, conhecido como "escutador". Esse feiticeiro tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas que foram enfeitiçadas. Os Sonacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos. As mães são particularmente suspeitas de amaldiçoarem suas crianças, enquanto ensinam a elas os ritos corporais secretos. A contra-magia do feiticeiro "escutador" é singular por sua ausência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "escutador" todos seus problemas e medos, começando com as primeiras dificuldades de que pode se lembrar. A memória exibida pelos Sonacirema nessas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum que o paciente lamente a rejeição que sentiu ao ser desmamado, e alguns indivíduos chegam mesmo a localizar seus problemas retrocedendo aos efeitos traumáticos de seu próprio nascimento.
        Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa, mas que dependem da aversão generalizada ao corpo e às suas funções naturais. Há jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres, se eles são pequenos, e menores, se eles são grandes. Uma insatisfação geral com a forma dos seios é simbolizada pelo fato de que a forma ideal está virtualmente fora do espectro da variação humana. Umas poucas mulheres que sofrem de um quase inumano desenvolvimento hipermamário são tão idolatradas, que podem viver muito bem simplesmente indo de aldeia a aldeia, e permitindo aos nativos admirá-las mediante um pagamento.
        Já fizemos referência ao fato de que as funções excretórias são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao domínio do secreto. As funções reprodutivas naturais são igualmente distorcidas. O intercurso sexual é tabu como tópico de conversa, e programado enquanto ato. Esforços são feitos para evitar a gravidez por meio do uso de materiais mágicos, ou pela limitação do intercurso a certas fases da lua. A concepção é realmente muito pouco freqüente. Quando grávidas, as mulheres se vestem de forma a ocultar seu estado. O parto ocorre em segredo, sem amigos ou parentes para assistir, e a maioria das mulheres não amamenta seus bebês.
      Nossa descrição da vida ritual dos Sonacirema certamente mostrou que eles são um povo obcecado pela magia. É difícil compreender como eles conseguiram sobreviver por tanto tempo debaixo dos pesados fardos que eles mesmos se impuseram. Mas mesmo costumes tão exóticos quanto esses ganham seu verdadeiro sentido quando vistos a partir da perspectiva dada por Malinowski, quando escreveu (1948:70):
      "Olhando de cima de longe, de nossos lugares seguros e elevados da civilização desenvolvida, é fácil ver toda a rudeza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder e sua orientação, o homem primitivo não poderia ter superado suas dificuldades práticas como o fez, nem poderia o homem ter avançado até os mais altos estágios da civilização."
REFERÊNCIAS CITADAS

LINTON, RALPH 1936 The Study of Man. NewYork, D. Appleton-Century Co.

MALINOWSKI, BRONISLAW 1948 Magic, Science, and Religion. Glencoe, The Free Press

MURDOCK, GEORGE P. 1949 Social Structure. New Y ork, The Macmillan Co.
1 Publicação original: “Body ritual among the Sonacirema”, American Anthropologist, Vol. 58, n° 3
(1956). p. 503-507.

2 University of Michigan, professor.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Recomendo:

Livro : Atlas de Anatomia Artística.
Préfacio do Atlas de Anatomia Artística, que será lançado dia nove pelos autores André Davim, João Faustino e Diego Filgueira, tive a honra de ter sido aluno do Dr. André Davim e ter sido monitorado por João e Diego (Grandes figuras). Pelo prefácio já se ver que  o livro/Atlas será uma obra de referência nesta área, comprarei o meu exemplar.

Daladier Pessoa Cunha Lima - reitor do UNI-RN

         A arte e a ciência são expressões exponenciais dos seres humanos, desde tempos remotos.  Reunir a arte e ciência é uma prática natural, tão comum quanto benfazeja.  Na área da saúde, desde a mitologia grega, muito se percebe essa sinergia. Conta-se que Esculápio, tendo aprendido música com o centauro Quíron, tratava diversas doenças com os sons da sua lira.  E Esculápio, deus da medicina, era filho de Apolo, deus eclético, de muitos atributos, entre os quais consta a proteção da luz, da beleza e da poesia. A arte tem tantos vínculos com as ciências médicas que surgiram , ao longo do tempo e por toda parte, institutos, confrarias, revistas, orquestras e vários outros tipos de associações para apoiar, ampliar e divulgar ações afins.

         Ao evocar a Renascença, dois gênios se destacam pelas suas obras que enobrecem a criatividade humana: Leonardo da Vinci (1452-1519) e Michelangelo Buonarroti (1475 -1564). Ambos voltaram-se para a anatomia humana, com estudos em cadáveres, até mesmo sob o risco de receberem punições pela ousadia. A partir desses estudos, criaram peças de desenhos e de pinturas do corpo humano, as quais são verdadeiros paradigmas dos vínculos entre a arte e as ciências médicas.  Em 1543, Andreas Vesalius (1514-1564) publicou sua famosa obra De Humani Corporis Fabrica, um marco universal do estudo da anatomia humana, com ilustrações geniais de desenhos que completam o entendimento do texto.

         A anatomia artística continua sendo forte exemplo do vínculo da arte com a ciência, de sumo valor educacional para as profissões da área da saúde, seja na forma do desenho, da gravura, da pintura e da escultura, seja também no uso da técnica digital. Atualmente, além dos modernos recursos computacionais, destaca-se uma nova expressão artística no estudo da morfologia humana, com o método da pintura na pele das pessoas "in vivo", principal inspiração deste criativo Atlas. A publicação deste livro deve-se ao empenho do Professor André Davim, mestre de anatomia humana do Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN, instituição sucedânea da FARN, com a participação dos artistas e enfermeiros João Faustino e Diego Filgueira. Todas as honras para o Professor André Davim, docente de grandes méritos, e para seus auxiliares, os artistas autores, ex-alunos do UNI-RN.  As pinturas contidas neste Atlas, feitas na pele de pessoas "in vivo", dão ao estudo da anatomia humana um "insight" superior, excedem a dimensão puramente figurativa, física, porquanto induzem a uma percepção dinâmica, psicológica e emocional.

Este prefácio do livro foi publicado na TRIBUNA DO NORTE ontem dia 03/05/2012, na coluna do professor e magnífico reitor do UNI-RN , professor Daladier Pessoa Cunha Lima, imagino o orgulho de André tendo seu livro sendo prefaciado por uma das figuras que ele admira que é o professor Daladier.

sábado, 28 de abril de 2012

Meu Turbilhão de pensamentos e reflexões.

"A liberdade guiando o povo". Espero que ela esteja a nos guiar hoje em dia, eu realmente espero.

Estava pensando...O mundo de hoje é reflexo das grandes revoluções que ocorreram...A gente pode achar que não, mais os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade da revolução francesa influenciaram o globo, a onda que teve de revoluções pelo mundo depois desta foi assombrosa...(lógico que tiveram revoluções que antecederam a esta, mais a considero a mais importante)...Só que esta e as  outras que vieram após esta(como o turbilhão da primavera dos povos, a de 1968 que mudou muita coisa no século XX e outras) aconteceram nas ruas , através de uma grande pressão da população...muita gente morreu...Muitas das nossas ideologias nasceram desses grandes embates.
Hoje percebo uma grande energia entre nós, uma grande vontade de mudar, só que fazermos, dizemos isso comodamente de frente a um pc!!!!Compartilhamos "esta pessoa aqui quer mais educação"( como eu acabei de fazer) e não vamos atrás disso...É o velho falar é fácil galera.
Quando morei na casa do estudante teve um dia perto do vestibular da ufrn( o vestibular era no domingo) e a CERN estava sem comer e o "presidente" organizou um panelaço/bandejada em frente a governadoria, não concordava com ele ( roubou para dedéu quando era presidente) mais aquele ato não era para ele( talvez até fosse, pois caso viesse desviaria uma parte do repasse da comida), mais tinha muita gente ali que precisava daquela comida.
Não fui, fiquei estudando desesperado genética (era até Doença Hemolítica do recém-nascido um dos assuntos) fui egoísta e ali pensei "Eu vou me importar com isso, o repasse só vem para X desviar mesmo, a gente fica só com o resto, tenho dinheiro para comer no self service mesmo" Hoje penso que deveria ter ido, protestado e reivindicado a comida, não só para mim ,todavia para os outros também!!!!
Sei não amigos, hoje acho que a coisa não muda enquanto você não for atrás, podemos compartilhar um milhão de vezes "quero mais educação,quero mais isso...quero mais aquilo" mais a realidade não mudará enquanto eu estiver na frente do pc...Mais o que eu posso fazer Eriberto?
Eu também não sei confesso, mais as vezes as oportunidades aparecem! Um dia eu tive a chance de ir reclamar com uma bandeja na mão por comida junto com mais umas cem pessoas e não fui!!!O repasse veio e muito bom por sinal ( a SETHAS sempre melhorava o repasse perto do vestibular) e eu me beneficiei do protesto, assim como hoje nos beneficiamos das mudanças que ocorreram nas grandes revoluções.
 Quem saiba não aparece outra chance ou até possamos criar uma outra chance!!! Fiquei triste hoje ao assistir uma reportagem hoje sobre a mesma CERN(Casa do Estudante, que é mantida pelo estado)  e ver que ela está com os mesmos problemas da época que eu morava lá!!!!Ai você pode dizer "Está vendo Eriberto, continua do mesmo jeito as coisas lá, pouco adiantou você ter ido ou não a bandejada, o vestibular era mais importante e uma pessoa a mais ou a menos não fez falta veio à comida."
 É meu amigo talvez você tenha razão, mais nunca saberei...Com relação ao vestibular não passei naquele ano( e caiu uma questão de genética na prova discursiva e eu fiz inclusive) mais com relação ao seu "Uma pessoa a mais ou a menos não fez falta veio a comida." deixo como resposta um preceito da teoria do caos que diz que o simples balançar das asas de uma borboleta de um lado do globo pode causar um tufão ou maremoto do outro lado do planeta!!!!Duvida?Veja o que uma Borboleta está fazendo em Natal!!!

Eriberto Esdras de Oliveira. 
A data que escrevi esse texto é anterior a postagem.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Resenha do Filme o Óleo de Lorenzo( Uma boa pedida para quem gosta de cinema).

Os atores que interpretraram tão bem o drama e a luta da família Odone!!!!Palmas para eles...me emocionaram em muitas cenas.



O filme começa com Lorenzo, seu pai (Augusto Odone) e sua mãe( Michaela Odone)  num país africano, eles estão lá devido o trabalho do pai de Lorenzo para o banco mundial, as primeiras tomadas mostram Lorenzo uma criança ativa, participando das aulas junto com as outras crianças da comunidade, e brincando com elas, essa primeira parte enfatiza uma amizade que nasce entre Lorenzo e um adolescente, essa amizade vai se mostrar muito importante para a trama que vai tratar da trajetória dele.
Com o tempo eles são chamados para os Estados Unidos, na escola Lorenzo começa a ficar agressivo na sala de aula, é quando a professora pergunta se Lorenzo está com problemas em casa o que é negado pela mãe visto eles terem uma relação harmoniosa, com o tempo Lorenzo também apresenta o comportamento agressivo em casa, e também chega cair de uma cadeira em que ele estava subindo para pegar uma bola de uma árvore de natal.
Com esses sinais estranhos os pais resolvem ir ao médico, lá o médico disse o terrível diagnóstico, Lorenzo provavelmente estava com uma doença do grupo das Leucodistrofias ( a dele seria a Adrenoleucodistrofia) o médico disse que até alguns anos antes esse grupo de doença não era nem conhecido, e a causa seria o  acumulo de ácidos graxos no sangue. Eles ficam traumatizados, em nossa pesquisa encontramos o seguinte depoimento do Sr Odone: “Fiquei apavorado, em choque. Era uma sentença de morte.” Segundo o que lemos, ele ainda pediu para ler o relatório o que recebeu como resposta segundo ele isso: “Não tenha esse trabalho, você não vai entender nada.” Esse episódio nos mostra o controle exercido pelos que fazem ciência na academia, simplesmente eles rotulam o casal como incapazes. Todavia isso não intimida aquele pai, e por contra própria resolve ir pesquisar sobre a doença onde passa uma cena muito marcante, pois ele começa a ver todos os prognósticos da doença que é horrível. Esse é um dos primeiros momentos em que se vê a utilidade das fontes de informação, o que o casal poderia ter feito se eles não tivessem tido como conhecer a doença? Provavelmente nada.
Eles resolvem consultar o especialista em ALD que diz está desenvolvendo um tratamento com base na retirada dos ácidos graxos da dieta, eles resolvem enquadrar seu filho nessa dieta, e nessa mesma consulta o médico faz uma declaração que abala as estruturas psicológicas da mãe de Lorenzo, ele fala que a doença é hereditária e ligada ao X ou seja, Lorenzo desenvolveu a adrenoleucodistrofia  unicamente devido a um gene proveniente de sua mãe, na hora ela questiona porque então ela não tem a doença, o médico responde que ela e as irmãs  dela eram somente  portadoras (Lorenzo desenvolve esta doença em hemizigose, ou seja o gene para a adrenoleucodistrofia  está numa região do cromossomo X não homologa ao Y). É importante colocar aqui, que também em nossas pesquisas vimos que o gene para ALD pode está num cromossomo que não o sexual, apresentando um caráter e padrão autossômico .
A mãe desaba de culpa, ela sente um peso enorme por ter passado esse gene para seu filho, com o tempo eles vão para uma associação (sociedade) dos pais com filhos com adrenoleucodistrofia, na reunião eles sentem-se decepcionados, pois lá eles não veem nenhuma discussão a respeito da doença em si, mais sim a respeito de suas vidas, de como “segurar” os esposos, eles questionam também o fato de apesar da retirada dos ácidos graxos da dieta os níveis dessas gorduras estarem aumentando! Eles ficam perplexos com a confiança cega mantida pelos pais no “tratamento”. Os membros da associação chegam a questionar quem são “os Odones” para questionarem a dieta do grande pesquisador.
E concomitante a esses acontecimentos, o filme mostra a constante perda das funções “normais” de Lorenzo, aos poucos ele não vai mais conseguir se comunicar, ele não se alimenta mais usando talheres (o que faz com que seus pais também venham a mudar seus hábitos para que ele possa se sentir normal). Eles colocam Lorenzo em um tratamento experimental a base de imunossupressão que não tem resultados. Em um momento do filme o pai resolve pesquisar, e ver se não existia outra terapia da doença junto com sua mulher, após vários dias (talvez meses) eles se veem diante de um “paradoxo da pia”, eles questionam o porque de que quando foi retirado o ácido graxo da dieta  ocorre um aumento da biossíntese  destes, é um dos grandes questionamentos do filme, numa das sessões de estudo a mãe de Lorenzo encontra um artigo que fala da diminuição dos referidos ácidos em 50% em ratos quando esses passam a ingerir  um acido graxo que está presente no azeite de oliva ( o ácido oleico ), para divulgar e ver se  eles estão diante de um possível tratamento, eles resolvem organizar um simpósio, nesse ponto vê-se uma perigosa relação da doença com o mercado, o médico que era o pesquisador que tinha desenvolvido o modelo da dieta diz que os custos são altos para um evento desse porte, e eles não conseguiriam angariar fundos, visto que a ALD não tinha uma grande prevalência no mundo (isso deixa nos  a pensarmos a quem serve a ciência?As famílias que tem crianças com ALD ou ao mercado ,que diz ter um número pouco prevalente da doença e por isso, não se justifica  o investimento em pesquisa.). O pai se coloca como um financiador e entrega uma pré lista de convidados que eles achavam relevantes, ele consegue doação até dos colegas de trabalho e fazem o simpósio ( congresso ).
Nele ocorre uma intensa troca de informação, mas eles não sabem se poderão usar o óleo, primeiro não sabem nem se já existe purificado, depois do simpósio eles começam uma procura pelo óleo e conseguem achar uma garrafa que estava numa prateleira de uma industria química, eles novamente vão consultar o pesquisador e este novamente se coloca contrario ao uso, o Sr Odone diz que não envolverá o “nome” dele mais mesmo assim ele se mostra contra, nesse ponto o Sr Odone diz uma frase que para nós foi marcante:”Eu sou um pai e vocês não vão me dizer qual óleo colocar na comida do meu filho”, sai  e começa a usar o óleo na dieta de Lorenzo, nos primeiros momentos eles observam a redução de 50% tal qual no estudo nos ratos, mas nos meses seguintes esse valor não se altera,  e isso é frustrante isso !Por quê?Augusto Odone se pergunta!
Nesse ponto ele vê que não entendeu a doença, apenas aplicou uma terapêutica vista em um estudo de ratos, mas não a entendeu, nesse ponto ele retira forças de não sei de onde e propõe para sua esposa voltarem a estudar, ela se nega, pois teme estar perdendo um precioso tempo com Lorenzo, mais mesmo assim ele a convence dizendo que irá trazer os textos para ela ler em casa. É bom frisar que até esse ponto várias pessoas já cuidaram de Lorenzo, inclusive uma tia (mais essa sai da casa por causa de uma briga com a irmã, a mãe de Lorenzo) e agora quem cuida dele é uma enfermeira que também sai por desentendimentos, agora eles resolvem chamar para cuidar do pequeno Lorenzo o grande amigo que ele fez no continente africano.
E o Sr Odone continua a estudar o fenômeno, por que quando chega ao nível de redução de 50% para de cair? Vamos salientar aqui a apropriação do conhecimento cientifico que esse casal de historiadores está fazendo, eles eram totalmente leigos com relação à biologia, a bioquímica e genética e de repente eles imergem nesse mundo, questionam como a ciência caminha, criticam-na, mas fazem isso com propriedade, com o conhecimento que eles se apropriaram. Esse é um ponto muito importante porque nos mostra a que serve o conhecimento, ele serve para questionar, levantar discussões!Outro ponto muito criticado pelo casal é o porquê da não divulgação imediata de uma informação?Por que não divulgar o uso de um óleo presente n o azeite de oliva?”Não podemos dar falsas esperanças aos pais...” Era a resposta. Nesse ponto chegamos a refletir, qual o mal? Parodiando uma música é como se os pesquisadores dissessem: É proibido SONHAR, diz o aviso que eu li.
Mesmo diante desse pragmatismo o Sr Augusto continua sua jornada e em certo dia com sua cunhada (ela começa a se aproximar de novo da família) ele apresenta mais um paradoxo porque tinha uma enzima que ia metabolizando os ácidos de cadeia longa e “outra” enzima ia metabolizando o ácido oleico mais tinha um determinado  momento que a metabolização dos ácidos graxos de cadeia longa não era mais realizada, e a  grande pergunta do senhor Odone era porquê?Então no filme mostra um momento de “insight” dele onde ele tem um sonho em que Lorenzo está a segurar as duas cadeias, ele acorda desse sonho e propõe  que ocorria a diminuição dos níveis séricos de ácidos graxos de 24 a 26 carbonos porque estes competiriam com o ácido oleico pela mesma enzima. Sim um leigo descobriu “o caminho bioquímico” de uma doença, ele e sua esposa se apropriaram do conhecimento científico mesmo que a revelia do mercado, até então eles tinham feito tanto por aquela doença, que podemos dizer que eles  fizeram uma obra digna de ser comparada com um dos doze trabalhos de Hercules .
É importante frisar que colocamos a comparação da “epopeia dos Odone” com a “epopeia de Hercules”, mas achamos que esta não vale, visto que o herói grego fez trabalhos inimagináveis sendo um “semi-Deus”,  e os Odones não , eles fizeram trabalhos inimagináveis sendo simplesmente humanos! Todavia a história ainda não tinha parado, eles tinham que achar outro óleo que em combinação com o ácido oleico pudesse ser utilizado para ao competir com os ácidos de cadeia longa poderem fazer com que estes fossem metabolizados mais do que o normal (os 50%), eles acham que a solução seria usar uma combinação do ácido oleico com o óleo de colza (este muito empregado na culinária indiana), desse vez aparece mais uma barreira os perigos cardíacos do uso desse óleo, e também eles teriam que correr atrás assim como no primeiro caso de uma “garrafa” desse totalmente puro, que industria iria processa-lo?No primeiro caso vamos dizer que eles contaram com a sorte em achar uma garrafa de oleico pura, mas nessa segunda empreitada quem os iria ajudar?
Que vantagem uma indústria química iria ter (financeiramente) ao sintetizar uma garrafa pura desse segundo óleo?Vemos aqui uma necessidade social se chocando com a lógica do mercado, é a velha questão, a quem serve a ciência? Após enviar seus estudos a diversos laboratórios eles acharam um que se comprometeu, era um laboratório que tinha como químico um senhor que aceita o desafio como um último trabalho antes da aposentadoria... Um último desafio!Dessa vez os Odones tinham achado um senhor que assim como eles era movido a desafios, e aquele parecia um bom desfecho para alguém que estava deixando a carreira, uma última tarefa nobre.
O filme mostra que ele consegue preparar aquele tão precioso óleo e em um dos momentos do filme Augusto pergunta a sua companheira se ela já  tinha se perguntado, que toda aquela luta, não iria servir para Lorenzo, e atriz começa a chorar dizendo que sim...Eles começam o novo tratamento para Lorenzo e dessa vez a taxa de diminuição dos ácidos graxos de cadeia longa cai para baixo de 50%, outra criança também começa a usar e vê o mesmo resultado, no caso de Lorenzo houve uma melhora visto que agora  aqueles ácidos graxos, não  estavam mais destruindo a bainha de mielina dele, ai o incansável Augusto Odone parte para uma nova empreitada, descobrir uma forma de “remielinizar” os neurônios do seu amado Lorenzo, novamente ele cai em campo e consegue organizar mais um simpósio/conferencia  para mais uma vez reunir todos os especialistas e fazer com que trocassem informações para que as pesquisas pudessem caminhar e não ficarem estagnadas em seus respectivos laboratórios. Sim, mais uma tentativa de mostra que muitas vezes a parceria é o melhor caminho.
O filme termina mostrando que o casal ainda continuou seu esforço para reverter o estado de Lorenzo, mostra também que muitas crianças passaram a tomar o “Óleo de Lorenzo” e tiveram alguns sintomas atenuados, nós lemos que quando aplicado de forma preventiva, ou seja, antes da criança desenvolver a ALD, ela começar a tomar o óleo os sintomas não aparecem. Outro ponto que é bom colocarmos é que o filme pertence a um drama e tem muitos outros aspectos que poderiam/deveriam ser abordados, mas nós nos concentramos nós pontos principais e pedidos no trabalho.

 Autor: Eriberto Esdras de Oliveira( Junto com meu grupo da faculdade ).
Augusto Odone com seu filho Lorenzo( Lorenzo morreu em 2008 em decorrência de uma pneumonia), Michaela morreu em 2000 devido a um cancer de pulmão.